Foco do meu mestrado: Mobilização Passiva Contínua

Estou sempre comentando aqui a respeito do meu mestrado, mas nunca deixei claro o que estou desenvolvendo. Então resolvi acabar com o mistério.

É de nosso conhecimento, já há algum tempo, que a imobilização de articulações, seja ela de origem temporária, provocada por uma fratura, por exemplo, ou permanente como conseqüência de lesão irreversível em algum ponto do sistema motor somático, dá origem a uma série de prejuízos às estruturas envolvidas nessa imobilização. Como prova disso, estudos apontam que músculos esqueléticos de membros imobilizados apresentam, entre outros efeitos, diminuição do tamanho das fibras musculares, alteração do comprimento do músculo em repouso, redução do tamanho e da quantidade das mitocôndrias presentes nos miócitos, diminuição do peso total do músculo e perda de força muscular. Já a cartilagem articular apresenta diminuição do tamanho e alteração funcional dos condrócitos (células responsáveis pela formação da cartilagem), aderência de tecido conjuntivo fibrogorduroso nas superfícies da cartilagem articular e necrose de pressão nos pontos de contato cartilagem-cartilagem. Em ligamentos evidenciou-se a diminuição da área transversal da fibrila ligamentar, reduzindo o tamanho e a densidade da fibrila, alteração do arranjo paralelo do colágeno, diminuição da capacidade de absorção de carga e de energia do complexo ósteoligamentar além da reabsorção óssea na junção ósteo-ligamentar. Todos esses efeitos fazem com que a recuperação do paciente se torne bastante penosa e demorada.

Obs.: Estudar toda essa parte de fisiologia, ortopedia e fisioterapia não é nada fácil para nós engenheiros!!! Mas nós conseguimos… é claro…😉

Em 1970, o Dr. Robert Bruce Salter deu inicio a diversas pesquisas onde buscava descobrir se a movimentação passiva de membros lesionados amenizaria ou não os efeitos maléficos causados pela imobilização (coitados dos pacientes!!! Rsrs). Nascia, então, a idéia da técnica fisioterápica conhecida até hoje como Mobilização Passiva Contínua (MPC). Pesquisas realizadas pelo próprio Dr. Salter, assim como por outros profissionais da área, revelaram que, realmente, o uso precoce da mobilização passiva em pacientes com lesões articulares, extinguiu os efeitos deletérios na estabilidade do ligamento e apresentaram diminuição do edema e da efusão articulares, além da diminuição da atrofia muscular. Outra questão importante é que pacientes submetidos a MPC recuperaram sua mobilidade antecipadamente e sofreram bem menos dor se comparados àqueles pacientes não tratados com essa técnica (retiro meu comentário anterior… sorte dos pacientes… :)).

Outro passo importante para o avanço da MCP foi o desenvolvimento do primeiro equipamento de mobilidade passiva pelo Dr. Salter em parceria com o Engº John Saringer em 1978. Desde então, diversos outros equipamentos foram sendo criados e aperfeiçoados, atendendo, mesmo que com algumas restrições, lesões tanto em membros inferiores como em superiores, assim como, em maxilar e clavícula. No entanto poucos equipamentos disponíveis hoje apresentam grande flexibilidade de utilização, ou seja, eles não abrangem todos os graus de liberdade do membro a que são destinados, tornando possível um número restrito de movimentos durante a fisioterapia. E mesmo aqueles que atendem razoavelmente aos graus de liberdade, apresentam parametrização não trivial.

Existe então a necessidade do desenvolvimento de equipamentos de operação simples e intuitiva e que sejam flexíveis o bastante para atender a maior diversidade possível de lesões levando em conta a singularidade de cada paciente. E aí que eu entro!!!

Estou desenvolvendo um equipamento para a realização de MCP em membros inferiores.

Meu intuito é, principalmente, divulgar e reforçar esta técnica que ainda é tão pouco explorada no Brasil. As vezes paro e fico pensando em quantas pessoas com as mais diversas doenças (lesões ortopédicas, esclerose múltipla, lesões medulares e nervosas, etc.) este meu equipamento poderá ajudar. Espero que estes sonhos se concretizem.😀

Bom, pessoal, é isso. Acabou o mistério. Rsrsrs.

Quem tiver interesse em conhecer o site do Dr. Salter falando sobre a MCP pode acessá-lo aqui.

Estou disponibilizando também abaixo a bibliografia que utilizei para consultar as pesquisas citadas no texto.

Abraços e até a próxima.

Bibliografia

Booth, F.W., and Kelso, J.R. (1973): Effect of hindlimb immobilization on contractile and histochemical properties of skeletal muscle. Pflugers Arch., 342:231-238.

MacDougall, J.D., Elder, G.C.B., and Sale, D.G. (1980): Effects of strength training and immobilization on human muscle fiber. Eur. J. Appl. Physiol., 43:25- 34.

Rifenberick, D.H., and Max, S.R. (1974): Substrate utilization by disused rat skeletal muscles. Am. J. Physiol., 226:295-297.

Appell, H.J. (1986): Morphology of immobilized skeletal muscle and the effects of a pre- and postimmobilization training program. Int. J. Sports Med., 7:6-12.

MacDougall, J.D., Ward, G.R., Sale, D.G., and Sutton, J.R. (1977): Biochemical adaptation of human skeletal muscle to heavy resistence training and immobilization. J. Appl. Physiol., 43:700-703.

Wester, B.M. (1982): Review of the repair of defects in articular cartilage: Part I. J. Orthop. Sports Phys. Ther., 3:186-192.

Videman, T. (1981): Changes of compression and distances between tibial and femoral candyles during immobilization of rabbit knee. Arch. Orthop. Trauma Surg., 98:289-294.

Noyes, F.R., Mangine, R.E., and Barber, S. (1974): Biomechanics of ligament failure. II. An analysis of immobilization, exercise, and reconditioning effects in primates. J. Bone Joint Surg. [Am.]., 56:1406-1418.

Salter, R.B. (1989): The biologic concept of continuous passive motion of synovial joints. Clin. Orthop., 242:12-15.

Salter, R.B., and Field, P. (1960): The effects of continuous compression on living articular cartilage. J. Bones Joint Surg. [Am.], 42:31-49.

Loitz, B.J., Zernicke, R.F., and Vailas, A.C. (1989): Effects of short-term immobilization versus continuous passive motion on the biomechanical and biochemical properties of the rabbit tendon. Clin. Orthop., 244:265-271.

McCarthy, M.R., Buxton, B.P., and Yates, C.K. (1993): Effects of continuous passive motion on anterior laxity following ACL reconstruction with autogenous patellar tendon grafts. J. Sports Rehab., 2:171-178.

Dehert, W.J., O’Driscoll, S.W., van Royen, B.J., and Salter, R.B. (1988): Effects of immobilization and continuous passive motion on postoperative muscle atrophy in mature rabbits. Can. J. Surg., 31:185-188.

Saringer, J., Bridging theory with practice: practical considerations in the design of CPM machines. Disponível em: <http://www.continuouspassivemotion.org&gt;. Acesso em: 17 out. 2008.

    • Gustavo Moura
    • 1 outubro, 2009

    Camila

    Boa Tarde

    Referente a equação de Laplace , realizo todo procedimento descrito , porem no resultado aparace DELTA e nao sai o resultado , tem mais algum ajuste para realizar na calculadora

    • elvis
    • 20 janeiro, 2010

    Boa noite.
    Sou graduando em fisioterapia.
    Li seu texto sobre MPC. Confesso que fiquei muito interessado no equipamento que você pretende desenvolver, Gostaria de obter mais informações sobre o equipamento e suas aplicações práticas.

    • Carolina
    • 26 abril, 2010

    Camila,

    Primeiro lugar, me interessei muito sobre o assunto! Gostaria de pedir uma contribuição… estou realizando um trabalho sobre o MPC e ficaria muito grata s você pudesse me enviar os artigos sobre o assunto que tem em mãos.

    Obrigada,

    Carolina
    villarpando_@hotmail.com

    • Gisele
    • 31 julho, 2011

    Olá Camila,
    sou fisioterapeuta especialista em ortopedia e traumatologia, atualmente cursando o 2ºano de engenharia, atendi muitos pacientes com o CPM e realmente é um excelente aparelho para mobilização passiva. Acredito que com os seus estudos os pacientes ganharão e muito.
    Porém, hoje só encontramos o CPM para a articulação do joelho, uma das minhas vontades como futura engenheira seria desenvolver o cpm para outras articulações como a do tornozelo por exemplo.
    Amei seu blog, amei as dicas principalmente da hp (integral e derivada), ganhou uma seguidora e uma fã pela pessoa maravilhosa que vc se mostra ser.
    Abraços

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